Nossa Molly

Você veio ao mundo em Junho de 1994, época da copa do mundo. Copa esta que o Brasil foi campeão pela quarta vez na final contra a Itália.
A primeira vez que lhe vi foi em Julho, na minha casa. Lhe trouxeram em uma caixa junto com seus irmãos e logo que a vi, me apaixonei.
Quando você veio morar conosco, lembro-me como se fosse hoje: minha mãe chegou contigo dentro da bolsa e a colocou no quarto da minha irmã (Ana Thereza) para fazer surpresa. Até então, vc ainda não tinha nome e tão pouco tamanho. Era apenas um ser peludo, meio branco e bege e gordinha.
Preciso ressaltar que você veio de presente de uma grande amiga minha (a considero uma irmã de alma) para minha irmã caçula. E presente foi o que sempre foi em nossas vidas!
No mesmo dia que chegou, à noite, na reunião familiar de casa, discutimos qual seria seu nome. Depois de tantos palpites achamos-a com carinha da "Molly" do filme Ghost, interpretada pela Demi Moore. Então àquele ser pequeno passou a ter uma identidade: Molly.
A partir de então foram tantas alegrias, histórias, diversão e companheirismo. Era tão pequena que precisava de ajuda para subir no sofá e nós (papai, mamãe, Rafael, Ana Thereza e eu) nos reuníamos para nos divertir com seu comportamento puro e meigo. Molly, você sempre foi sinônimo de agregação familiar. Quantas vezes papai chegava cansado e de mal humor e assim que ele te via na janela prontinha para fazer a "festa da chegada", ele já abria a porta do carro e lhe chamava para darem uma voltinha no quarteirão. Como gostavam de fazer isso durante a semana!!
Aos sábados papai ia à feira e não esquecia nunca de trazer os seus tomatinhos e suas maçãs, sua comida preferida! À noite costumávamos brincar de esconde-esconde contigo, lembra? O Rafael dava as coordenadas e eu e a Ana Thereza nos escondíamos! A única coisa meio chata era que sempre nos procurava nos mesmos lugares e para lhe agradar nos escondíamos também nos mesmos lugares...rs
Não vou lhe perguntar se lembra do Tony porque com certeza lembra-se, afinal ele foi pai de muito dos seus filhos. Molly filha, eu nunca entendi muito bem a relação de amor e ódio que cultuavam um pelo outro, mas entendo...
Me recordo de quando ficava grávida e nos deixava um pouco de lado devido aos seus filhinhos necessitarem de ti 24 horas do seu dia. Tudo bem, entendo que eles precisavam de ti o tempo todo, mas nós sentíamos a sua falta.
Molly, me lembro de às vezes triste ou brava com alguma coisa e vc vinha com seu rabinho balançando querendo brincar e eu a colocava de lado. Isso nunca foi motivo para você deixar de me amar ou de estar sempre ao meu lado. Vc simplesmente parava de abanar seu rabicó e deitava-se ao meu lado em silêncio, como se compreendesse que eu não era tão perfeita quanto a ti e tinha meus momentos ruins de ser humano.
Nossa! E as festas que fazíamos juntos, recorda-se? Quando papai e mamãe iam viajar para praia ou para o sítio e permitíamos que você subisse as escadas, que davam acesso aos quartos, no andar de cima para dormir com o Rafael "agarradinha". Mamãe nunca gostou de lhe ver andando pelos quartos e eras tão esperta assim que o carro deles saía, vc corria para fazer festa conosco nos quartos. Aí que tempo, aí que vida boa!!
Não consigo pensar em algum momento que ficou brava conosco ou chateada, a não ser quando saíamos e não podíamos te levar que você fazia questão de picotar qualquer papel que via pela casa e espalhar. Ah Molly, Molly, eram só saídinhas rápidas, nunca teríamos coragem de lhe abandonar.
Você sempre foi tão importante para nós meu amor! Recordo-me do último dia de vida do papai. Ele estava engessado e você passou o dia todo na cama com ele "puxando o saco" e ele ficava te abraçando e dizendo: "a Molly é a companheira do pai".
Sei que a pessoa que você mais amou lá de casa foi o pai, acho que era meio uma paixão incontrolável..rs..você não podia vê-lo que largava tudo para ficar com ele.
Os anos passaram, muitas coisas aconteceram em nossas vidas; boas e ruins e sempre tivemos sua companhia e seu amor incondicional.
Agora, após tantos anos juntas, vem o destino que não falha nunca: a idade chega para todos e chegou para você também.
A minha Molly não tem mais energia para andar, correr ou para brincar. Ela só quer ficar no cantinho dela, em silêncio, nem com tanta dor ela xinga ou esbraveja. Molly esta quieta esperando sua hora chegar para ela conhecer o céu dos cachorros.
Molly, tenha certeza que vai para o céu dos cachorros e que fica perto do céu dos humanos, para você visitar tantas pessoas que se foram antes de ti e matar as saudades. Ainda não sei Mollizinha quando vai, mas espero que não sofra muito mais aqui na terra. Você não merece!! Molly sempre foi sinal de amor e companheirismo.
Seu médico disse que não tem mais o que fazer, pode ser que fique mais um tempo ainda conosco ou não. Só não quero, meu amor, que sofra.
Escrevo esta cartinha, para dizer que sou muito grata por todas as alegrias e por todo amor que sempre teve conosco e diferente dos que muitos podem pensar: vc fez isso em silêncio, sem pronúncia uma palavra da língua humana.
Obrigada por ter sido mais que uma amiga, vc faz tão parte da nossa família quanto o papai, a mamãe, o Rafael, a Ana e o André.
Muitos se referem à ti como "cachorro" eu só digo que é a MOLLY, a minha mais que amada MOLLY e que sempre estará presente no meu coração, enquanto eu viver eu vou te amar.
Hoje, me reservo ao direito de estar triste e pensativa...diferente de ti Mollizinha, não consigo passar alegria para alguém. Não sei como ficarei quando partir, afinal são muitos anos e que não irão se apagar.
Não posso mentir também que tenho esperança que irá melhorar e sair para brincar pela casa com a mamãe e a Teta, mas entenderei se não der. Entenderei se seu prazo de nos dar amor e alegria aqui na terra, em breve se acabe. Só quero ressaltar o quanto te amo e o quanto me fará falta.
Sei também que nossa história não esta neste texto, sei minha flor, que são milhares que não caberiam aqui, tenha certeza que elas estão guardadas dentro de mim e ficarão por aqui para sempre..
Sentiremos saudades!
Com amor,
Karem

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